quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Para pensar...

NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI


Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakósvki.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho e nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas no tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!




EDUARDO ALVES DA COSTA
Niterói, RJ, 1936

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

O Caso dos Ipês Verdes - Parte II



Hoje, em nossa escola, recebemos a ilustre visita de um repórter do jornal de nossa cidade, " O Jequi", que convidado pela diretora, veio fotografar e registrar depoimentos sobre o ipê verde.
Tal presença causou euforia entre os alunos. Por coincidência, alguns que integram a peça " O Fantástico Mistério da Feiurinha", vestidos a caráter, para se apresentar em outra escola, puderam posar, todos orgulhosos, para os flashes da imprensa.
Depois disso, lá se foi nosso amigo repórter, a diretora e a professora rumo aos ipês, no fundo da escola. Para os flashes, um outro professor que, aderindo ao entusiasmo demonstrado pela mestra e utilizando seus conhecimentos agrícolas, já estava realizando plantio de sementes do ipê com os alunos.
Alunos se debruçavam pela janela curiosos: _Vai sair no jornal? Não brinca?
Algumas histórias começavam a aparecer, como a da garota que tem um ipê verde na sala que está quase quebrando o telhado e a de um outro garoto que disse que em Boa Vista (um povoado de nossa cidade) tem um pasto lotado de ipês verdes.
Verídicas ou não, as histórias demonstram o interesse dos alunos pelas árvores e levam a uma valorização do espaço que cerca a escola.
Não é raro ver alunos depredando o limoeiro e as goiabeiras que existem ao redor das salas de aula. Eles quebram galhos, se balançam. Quanto à grama, esta virou passeio.
Espero que os ipês verdes ajudem a conscientizá-los na preservação dos nossos espaços. Que o entusiasmo e o envolvimento que mostram com nossa descoberta se estenda a todos.

Da Capacidade de Admirar e de se Entusiasmar - O caso dos Ipês Verdes

Envolto por seu cotidiano atribulado, o professor, aos poucos, vai perdendo a capacidade de admirar as coisas que acontecem ao seu redor.
Muitas vezes, passam despercebidos a eles, detalhes que tornariam seu dia-a-dia mais ameno e, porque não, mais interessante.
Esta semana, uma "descoberta" me causou espanto.
Estava eu, distraída, repensando e remoendo problemas do dia anterior, quando, do nada, surge uma professora entusiasmada, com um tom de voz mais alto que o normal. Falava e agitava em suas mãos algumas folhas.
Tal professora, originalmente, lecionava Geografia. Mas, hoje, supria a falta de um professor de Ciências.
Pensei: Meu Deus! Que diabos está acontecendo? Será algo encontrado em sala?
Então ela se vira e diz:
_ Você não sabe o que acabei de descobrir?
Eu disse:
_ Ai, ai, ai... que foi? _fiquei temerosa com a resposta, mas tinha que perguntar.
_ Nossa escola tem dois pés de ipês verdes!
_ Ipê verde? Isso existe? - respondi, incrédula.
_ Existe sim. Olha aqui. - E me mostrou as folhas que trazia nas mãos.
Bem, elas não eram folhas. Eram flores semelhantes às de ipê, só que verdes.
_ Ah, como você tem certeza de que são dois ipês? Nem bem começou a dar aulas de Ciências e já está catalogando a flora da escola? - brinquei.
_ Eu estava na janela da sala quando vi as folhas caindo da árvore. Observei bem e vi que não eram folhas, e sim, flores. Pedi que um aluno as recolhesse e trouxesse para mim. Lembrei-me imediatamente de uma reportagem que vi na TV sobre a raridade dos ipês verdes. Pensa só: aqui, em nossa escola, não um, mas dois ipês verdes.
_ Mas não será uma árvore parecida? Talvez um engano. Como você chegou à conclusão de que se trata de ipês verdes? Só pela flor? - desafiei.
Ela pensou um pouco. Olhou para o ipê amarelo que temos na escola, olhou para suas mãos e falou:
_ Vamos tratar de investigar.
Nesse momento, um telefonema interrompeu nossa conversa.
Depois de uns dez minutos, retorno ao pátio e encontro a professora cercada por três alunos que recolhiam do ipê amarelo, folhas, flores, sementes e pedacinhos da casca. Ela me chamou.
Quando me aproximei, percebi que haviam montado um modelo comparativo das duas espécies.
E ela, freneticamente, falava:
-Olha aqui, a estrutura da folha! Igualzinha! A flor! Até os risquinhos iguais! Olha a casca! Idêntica! E a semente, é só perder este pedacinho que fica igual!
Eu ali, admirando a capacidade de entusiasmar. Alunos coletavam e organizavam. Até eu me senti disposta a ajudar.
Na hora do recreio, o assunto era: o ipê verde da professora. Ela apresentou aos colegas o mesmo modelo comparativo que os alunos montavam. E fez as mesmas observações que presenciei.
Eu, ali, em silêncio, fui observando as reações. Todos se mostravam interessados na história. Porém, alguns não conseguiam compartilhar do entusiasmo da professora, chegando mesmo a comentar: eu queria me entusiasmar como você! Outros, se dispuseram a pesquisar, ajudando na descoberta, ou não.
Vale ressaltar que, nesse dia, em cada sala que entrou, a professora divulgou a possibilidade de uma raridade presente na escola. Ainda, levou para casa todo o modelo produzido, se comprometendo a buscar uma resposta.
Eu também fui para casa.
Por ter uma vida profissional paralela, geralmente não me ocupo com atividades da escola na parte da tarde. Porém, o caso dos ipês verdes da professora me impressionou tanto que não consegui esquecê-lo. Tão logo conectei-me à internet, realizei a pesquisa: ipê verde. Mas foram tão poucos os resultados relevantes. Nada de foto - logo o que eu mais queria! Pesquisa dali, pesquisa daqui, vou mudando os argumentos e chego a um fotolog de estudantes de botânica. Ali, finalmente, o ipê verde, exposto em sete esclarecedoras fotos. Idêntico ao da escola: flores, folhas, sementes e casca. Salvei e imprimi as fotos para mostrar à professora.
Chegando à escola, a primeira coisa que fiz foi apresentar as fotos a ela. Que alegria! Parecia uma vitória de campeonato! Até ali, parecia tudo provado. Nossas árvores eram ipês verdes!
Adivinha o que a professora fez?
"Excursão" para visitar os ipês verdes com todas as suas turmas. rsrsrs
Agora, temos que fazer uma análise mais completa e buscar mais informações. Se, por um acaso, nossas árvores forem realmente raríssimas como dizem por aí, temos que divulgar o fato e promover uma proteção mais efetiva dessa dupla que ensejou um dos episódios mais inusitados que já vi em minha trajetória em escolas.